Quando a inspiração chegou,
o escritor ainda dormia. Deixou uma nota: “aconselho mais
transpiração”.
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domingo, 28 de julho de 2019
domingo, 26 de maio de 2019
Pós-eleições
Noite
alta, um estrondear inusitado. Não era tiroteio, nem foguetes; só
os vizinhos a largar os pesos da consciência.
domingo, 28 de abril de 2019
Conflito
Generalizando,
nenhum de nós é quem afirma ser. Somos o que fazemos em situações
de conflito. É nessas situações que nos revelamos.
Conflito
é a perceção de que existe um obstáculo que nos impede de
alcançar certo desejo. É uma disputa entre as coisas como elas se
nos apresentam e como gostaríamos que elas fossem. E a nossa reação
a esse desacerto.
Conflito
é o eixo central de todas as histórias, porque define o foco
da narrativa e delimita o tema que será desenvolvido em mais
profundidade no texto.
As
personagens são os alter-egos que, nas histórias, nos permitem
experimentar a complexidade do mundo, sem os seus perigos.
O
motor que motiva as personagens a lutar para alcançar os seus
desejos são as suas crenças e os seus valores. São as suas
referências de certo e errado, bom e mau, relevante e irrelevante,
possível e impossível, desejável e indesejável. Essas referências
determinam todos os seus comportamentos, pensamentos e emoções.
Como determinam os nossos.
Atentar
em que conflito cada personagem se envolve e como o ultrapassa
ajudar-nos-á a identificar as suas crenças e os seus valores. E
vice-versa. Como os conflitos em que nos envolvemos e como os
ultrapassamos nos ajudam a perceber quem na realidade somos. E
vice-versa.
Generalizando,
a leitura ensina a viver.
domingo, 24 de fevereiro de 2019
Breve Dissertação sobre o Palavrão
Caros
circunjacentes:
A
minha preleção de hoje versa o palavrão em todas as suas aceções,
o qual, segundo o dicionário Houaiss,
pode ser considerado em três aspetos semânticos:
O
mais popular, imediato e disseminado é o turpilóquio ou tabuísmo.
Nesta forma torpe, explode, geralmente, boca afora, espontâneo e
veemente, quando se é vilipendiado de maneira inopinada ou
prepotente nas interações sociais. Sobrevém, amiúde, nas
acrimónias do trânsito citadino, onde a peleja pelo espaço
essencial do asfalto faz colidir os interesses particulares. Então,
nos píncaros da exaltação, aquilo que primeiro acode aos lábios,
sem se subordinar a uma triagem nas circunvoluções da
racionalidade, são considerações sobre as características ou os
hábitos excretais ou sexuais do pretenso agressor ou de algum membro
da sua família. São expressões belicosas cuja significação pretende provocar algum constrangimento na autoestima do interlocutor acidental. Por
exemplo,
«Rastilho curto!», o
que, como calculam, também achincalha o tamanho do autocontrolo
dele.
No
entanto, para atingir o adversário de maneira cruenta e implacável,
o vitupério não precisa de coincidir, morfologicamente, com um vocábulo de
semântica obscena. Para tanto, basta
a entoação colmatar a escassez de ignomínia. Recordo aqui a forma irretorquível
como concluí uma altercação de trânsito, que deixou o meu
antagonista em estupor, como touro lidado: «Ó meu caro amigo: Vodafone!»
A
forma mais vulgarizada, todavia, é a de aconselhar o contendor a
encetar determinada atividade, ou a deslocar-se para determinado
local, diversos dos atuais, e que, na opinião do fustigador, se
adequam melhor às características do enxovalhado. As notícias da
política internacional são um manancial de expressões com
sonoridades e construções ortográficas que sugerem conotações
soezes e insultuosas. Aquando da guerra na ex-Jugoslávia, ouvi uma
feirante verberar outra, nos seguintes termos:
«Vai pà Bósnia, sua Herzegovina!» Se fosse agora, talvez dissesse
«Vai Bachar al-Assad com Brexit, sua Guaidó!»,
o que me parece
de uma gravidade inquestionável. Ninguém merece ver-se confrontado
com esta alternativa.
Outro
significado de “palavrão”, este com alto grau de adequação, é
“palavra grande e de pronúncia difícil”. Quando era mancebo,
pensava que o maior palavrão da língua portuguesa era
“inconstitucionalissimamente”, com 27 letras. Hoje, constato que
o palavrão que me enchia de orgulho era apenas um palavrinho, como
pirilau de menino. O do pai chama-se
Paraclorobenzilpirrolidinonetilbenzimidazol, tem 43 letras e é uma
substância farmacêutica. O do vizinho africano chama-se
Pneumoultramicroscopicosilicovulcanoconiótico, tem 46 letras e
significa “portador de uma doença pulmonar aguda causada pela
aspiração de cinzas vulcânicas”.
O
mundo destes palavrões é atroz. Embaraça qualquer estudante de
medicina, mas, sobretudo, aterroriza o portador da doença
Hipopotomonstrosesquipedaliofobia, a qual — crueldade das
crueldades — é a “doença psicológica que se caracteriza pelo
medo irracional de pronunciar palavras grandes ou complicadas”.
Imaginem o pânico do doente de ser inquirido sobre a denominação
da sua própria enfermidade!
Estes
vocábulos escaganifobéticos parecem-me denunciar o pérfido
subterfúgio de arquitetar termos complicados, pela mera acoplagem,
numa mesma palavra, de outras muito mais curtas. Por esta técnica,
também posso autoqualificar-me como
Homemextremamenteatraenteinteligentedivertido, epíteto de que só
não faço uso por abominar redundâncias.
A
terceira aceção de “palavrão”
domingo, 27 de janeiro de 2019
A ponte
Viajar
para Saturno não fazia parte das aspirações de Oleg, em criança.
As leituras de juventude — muita ficção científica, muita
divulgação científica — levaram-no, no entanto, para caminhos
insuspeitos, mas empolgantes. Aos trinta e dois anos via-se a caminho
de Encélado, uma lua de Saturno com aparentes boas possibilidades de
desenvolver vida: tem água líquida, atividade hidrotermal e uma
composição gasosa com algumas semelhanças com a da Terra. Tais
condições, talvez amigáveis para humanos, desencadearam mais uma
corrida espacial entre as nações do planeta azul. Haverá um
momento em que pequenas colónias de homens terão necessariamente de
procurar alternativas de espaço e de recursos naturais fora da
superlotada e envenenada Terra.
Oleg
integra a minúscula equipagem da Moct, a nave que já navega há
quatro anos e ainda precisa de mais dezasseis para chegar a Saturno.
Os três membros viajam em regime de oito meses de semi-hibernação
induzida, por quatro meses de vigília/sono. O tempo custa a passar.
Ainda falta quase um mês para Oleg voltar a ser submetido à fase
letárgica. O isolamento é penoso e pérfido. Trocar palavras com a
base terrestre é um exercício kafkiano, devido ao desfasamento
temporal provocado pela distância. Uma palavra que ele lançasse
agora para a Terra demoraria mais de três minutos a chegar lá; se
devolvida logo, a resposta chegaria a Oleg mais de seis minutos
depois. Não dava para conversar; só parodiar um patético diálogo
de afásicos.
Oleg
não estava tão isolado assim, tinha consciência. A enorme equipa
que programara a missão a Encélado previra as intermináveis horas
de solidão, estudara os gostos e a personalidade de cada cosmonauta.
A Oleg forneceu cinquenta “teras” de filmes e livros,
distribuídos por vários unidades de armazenamento.
No
final da adolescência, Oleg continuava muito reservado. Era
frequentador da biblioteca da sua cidade natal. Gostava de se
internar no universo fantástico das secções; como descobridor de
mundos, costumava aterrar numa galeria, explorar o continente de uma
estante, deambular pelos vales surpreendentes das prateleiras,
deslumbrar-se com as residências dos habitantes, entrar nas páginas
de uma e tomar contacto com os inesperados moradores, às vezes,
seres bizarros e inquietantes; outras, criaturas simpáticas e
calorosas. À despedida, um conforto espiritual acompanhava-o,
animando a sua condição de homem em busca de enriquecimento
íntimo.
Da
adolescência guardou aquele gosto pelo inesperado: entusiasmava-se
com o que
a sorte lhe atribuiria, em pesquisas aleatórias de leitura.
Instalou-se no conforto de uma ténue gravidade artificial da zona de lazer,
posicionou o visor a uma distância cómoda e lançou a
pesquisa. A máquina apresentou-lhe “O jovem pastor e a fadazinha”,
um conto valáquio
de Gorki. À memória acorreu a imagem de um prado de extensão
inimaginável. E do deslumbramento juvenil do pastorzinho aconchegado
entre céu e planura.
Lembrava-se
de todos os grandes clássicos: da monumentalidade de Tolstoi, da
sátira social de Gogol, dos contos suaves e realistas de Chécov;
este conto tinha estado encoberto, há tanto tempo que não o lia...
Dentro em pouco, estava embrenhado nas peripécias ingénuas e
carinhosas do pastor e da pequena fada nas margens do Danúbio:
«O
pastor sentou-se à sombra de uma árvore solitária que, amante da
liberdade, se afastara da floresta para crescer em plena estepe;
erguia-se orgulhosa e altivamente, balouçando suavemente os ramos
sob a carícia do vento que soprava do mar.
Era
no mês de maio, um mês encantador, um mês alegre. A folhagem nova
que o mês tinha feito nascer,
domingo, 25 de novembro de 2018
Saramago em Concerto
Na
última passagem de ano, desloquei-me com o grupo familiar habitual
ao espaço fronteiro à Torre de Belém, onde a autarquia prometia
música e fogo de artifício. A surpresa foi muito agradável. Até à
meia-noite, atuou um conjunto muito curioso: formado por três
violas, bateria, piano e três metais, só tocam músicas dos
Beatles, copiam-nos em tudo, até nas roupas. Dão pelo nome de “Get
Back Beatles” e são brasileiros. O esforço rende resultados:
abstraindo-nos um pouco, quase acreditamos que estamos a ver e a
ouvir os autênticos, quarenta anos depois, em Lisboa, todos vivos e
jovens.
Admirei-os
por terem conseguido arranjar um nicho de mercado original e rendoso.
Este
revivalismo vem acontecendo com outras formulações. Tomei
conhecimento de que, num clube privado, um grupo fazia a passagem de
ano só com a banda sonora de uma novela brasileira. Uma passagem de
ano temática.
Sempre
atento às oportunidades de ganhar dinheiro com a literatura,
dei por mim a pensar como se aplicaria o conceito ao ramo literário:
Seria
possível encher um pavilhão, a pagar, para ver um autor a criar um
conto? Várias câmaras captariam a folha onde o escritor alinharia
as palavras, apresentando em grandes ecrãs panorâmicos com que
palavras começava, quais cortava, mostrando o conto a nascer e a
crescer, paulatina, mas inexoravelmente. Outras câmaras mostravam
que apoios consultava, que palavras procurava nos dicionários, que
partes ia aproveitando. Seria de evitar que o escritor
domingo, 30 de setembro de 2018
A folha antes branca
Escritores
sem inspiração é o que mais há! Silvino tinha lido que é mais
fácil quando se escreve sobre o que se viu e viveu, e matou toda a
família. As teclas feriram as folhas por um semana. O texto escorria
sangue.
A
editora gostou. Os outros presos também, e pedem-lhe autógrafos.
domingo, 26 de agosto de 2018
A extinção do Português
Há
tempos tive a visão clara da extinção do Português. Um grupo de
brasileiros, provavelmente recém-chegado, tentava fazer-se
compreender num restaurante de Lisboa. E entender o empregado. Um
deles acabou por exclamar: — Não entendi porra nenhuma!
Estará
o Português em perigo? A incomunicabilidade entre versões de uma
língua é um forte sinal de alarme. Uma língua tem um comportamento
semelhante a uma espécie viva: evolui a partir de uma antepassada,
ganha massa crítica de indivíduos, autonomiza-se, cria rebentos
semelhantes, pode expandir-se, pode ficar isolada, definhar e morrer.
Hoje,
existem cerca de seis mil línguas, fora os dialetos, mas todos os
anos desaparecem dez, em média. Com elas perdem-se os tesouros
culturais que veiculavam. E, tal como as espécies, uma língua, uma
vez extinta, não reaparece mais. O limite da sobrevivência situa-se
por volta dos cem mil falantes. Na história humana terão já
desaparecido mais de vinte mil línguas. Algumas, pelo contrário,
sobrevivem há mais de dois mil anos. O segredo do sucesso parece ser
o grande número de falantes. Como o número de indivíduos nas
espécies, o número de indivíduos que usa uma língua assegura-lhe
a continuidade.
Neste
ponto, o Português, com os seus 250 milhões de falantes, tem boas
condições de sobrevivência e até de expansão. Só o Brasil tem
quase 210 milhões. Outros milhões são falantes em grandes países
africanos com excelente potencial de crescimento. É uma das nove
línguas que, só elas, congregam metade da população mundial. É
como uma espécie endémica; o seu êxito é inquestionável. Evoluiu
do latim, a partir do regionalismo galaico-duriense, e conseguiu
constituir-se como língua autónoma, apesar do convívio contagioso
com o castelhano. Mas estes 250 milhões ainda falam uma só língua?
domingo, 22 de julho de 2018
Homofonia
— Bom
dia! Uma sandes de fiambre, se faz favor!
— Só
à uma.
— Só
há uma? Ótimo. Pode ser essa…
domingo, 27 de maio de 2018
“Alma cibernética”
O
primeiro processador compunha frases simples, a partir de longas
listas de substantivos, adjetivos, verbos e complementos. Os
seguintes geravam conjugações mais complexas. Por fim, o inventor
publicou um livro de poemas.
A
crítica elogiou-lhe as sonoridades e a profundidade de algumas
reflexões.
domingo, 1 de abril de 2018
Duplicador
Na
casa da aldeia havia uma máquina de escrever antiga, com uma fita de
duas cores. Quis testar a velharia e tentei um microconto. As letras metálicas batiam na
união das cores. No papel, consegui ler uma história na metade
preta de cima e outra na metade vermelha de baixo. Complementares.
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