quarta-feira, 9 de julho de 2014
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Texto do escritor Luis Cardoso de Noronha
Aos leitores agradeço o
interesse pelo meu livro. Os meus votos de uma feliz Travessia através do
Requiem para o navegador solitário. Para vós dedico a minha crónica O Apelo do
Mar em Travessias Luís Cardoso. Abraço
O APELO DO MAR
A primeira vez que se olha
para o mar fica-se com a vontade de fazer uma viagem para o outro lado,
atravessando essa enorme extensão de águas. Não sei se é essa a razão que faz
com que muitos se tenham virado para o mar, em busca de liberdade, de paz, do
silêncio, da solidão, da explicação da vida, deles próprios, a fuga ou o
retorno. Razões íntimas que ultrapassam os enredos que cada um possa forjar,
para explicar o apelo do mar.
Rui Cinatti, português,
poeta, silvicultor, antropólogo e estudioso de Timor dedica o seu poema Visão a
Alain Gerbault, a quem presta homenagem pelo facto de lhe ter dado a conhecer
as fabulosas ilhas dos mares do sul e a cultura dos povos insulares.
Eram ilhas
Hercúleas: coroas
Vegetais sobrenadando
Altos castelos submersos e, apenas,
(«Sepultem-me no mar, longe de tudo»),
Alain,
Entre vagas, velas e
gaivotas.
Timor está consagrado como a
ilha do sândalo branco. Camões escreve no Canto Décimo dos Lusíadas Ali também
Timor que o lenho manda sândalo salutífero e cheiroso. Também é local de
passagem. Assim acontece com a primeira viagem de circum-navegação, que o cronista
António Pigafetta reporta no seu livro de bordo Relazione del primo viaggio
intorno al mondo. Mais tarde os portugueses transformam a ilha num local de
desterro para muitos dos opositores ao regime de Salazar. Quando Alain Gerbault
chega a Díli, Timor encontra-se num momento de tensão. A guerra está prestes a
eclodir no Oriente. O território declarado neutro por Salazar sofre pressão
tanto das forças aliadas como das japonesas. Alain é uma celebridade. As
autoridades dispensam-lhe alguma atenção e chega mesmo a disputar partidas de
ténis com residentes. No entanto adoece e acaba por falecer no dia 16 de
Dezembro de 1941, no Hospital de Lahane. A sua morte não tem a devida atenção
pela comunicação social por causa da guerra na Europa e da iminência da sua
eclosão na Ásia.
Cinatti vai para Timor após
a ocupação japonesa. É no cemitério de Santa Cruz que localiza e assinala a
campa de Alain Gerbault, o navegador solitário, cujos restos mortais são
levados posteriormente pela marinha francesa para Bora Bora.
O meu interesse pela vida e
obra do navegador solitário francês começa a partir do momento em que tomo
conhecimento da sua morte em Timor. Numa ilha considerada local de passagem e
porto de abrigo para viajantes.
Fazer uma grande viagem pelo
mar é o sonho de qualquer criança que viva numa ilha. Lembro-me dum episódio na
infância, passado na ilha de Ataúro, com um grupo de amigos. A nossa primeira
tentativa de fuga ao lar. Mais do que uma fuga era a nossa vontade de descobrir
o que havia para lá dos mares. A viagem que seria o princípio do conhecimento
do Universo. À procura de encontros imprevistos. Uma tentativa para romper com
o cerco da ilha, cuja circunstância geográfica foi aproveitada como prisão para
deportados. Um banco de corais não nos deixou ir mais longe. A piroga ficou
encalhada nas pedras que emergiam do fundo do mar. O nosso sonho ficou por aí.
É essa a razão que me leva a escrever romances que têm como pano de fundo as
grandes viagens marítimas. Uma das quais feita por Alain Gerbault que celebro
no meu livro Requiem para o navegador solitário.
A morte de um estrangeiro é
sempre motivo de constrangimento por não ter o devido acompanhamento por parte
de familiares e de amigos. Cada um devia morrer no local onde nasceu,
devolvendo à terra tudo o que esta lhe deu em vida. Assim diz uma lenda que li
algures. Tendo partido em busca do sol, como sugere o título do seu livro A la
poursuite du soleil, Alain Gerbault morre na ilha onde, segundo a mitologia
timorense, nasce o sol, completando assim o seu ciclo de vida. Cinatti
adivinha-lhe as últimas palavras:
- Sepultem-me no mar, longe
de tudo
Entre valas, velas e
gaivotas!
Luis Cardoso de Noronha
2014 - 5ª sessão - "Escritores Diferentes. Uma Só Língua"
Requiem para um navegador solitário de Luis Cardoso de Noronha
Deu-se início a esta sessão dedicada a Timor ouvindo a lenda da criação deste País interpretada por Orlanda Rodrigues. De seguida Adriana Lopes leu um texto enviado pelo escritor Luis Cardoso de Noronha dedicando a crónica "O apelo do mar" a todos os leitores desta comunidade.
Uma sessão agradável e informativa porque ficámos a conhecer um pouco mais da história de Timor, num período conturbado entre o Ocidente e o Oriente, num cenário de 2ª Guerra Mundial e ainda ficámos a conhecer um pouco do seu imaginário mítico.
Terminámos com a prova dos doces timorenses Mano Tem, fritos que são considerados como a salvação das donas de casa timorenses quando estas recebem uma visita inesperada e acompanhámos com um capilé que a equipa da BMJS preparou.
Terminámos com a prova dos doces timorenses Mano Tem, fritos que são considerados como a salvação das donas de casa timorenses quando estas recebem uma visita inesperada e acompanhámos com um capilé que a equipa da BMJS preparou.
A Lenda de Timor
Em tempos que já lá vão, vivia na ilha Celebes um crocodilo muito velho,
tão velho que não conseguia caçar os peixes do rio. Certo dia, morto de fome,
decidiu aventurar-se pelas margens em busca de algum porco distraído que lhe
servisse de refeição. Andou, andou, até cair exausto e desesperado, sem forças
para regressar à água. Quem lhe valeu foi um rapaz simpático e robusto que teve
pena dele e o arrastou pela cauda.
Em paga
pelo serviço prestado, o crocodilo ofereceu-se para o transportar às costas
sempre que ele quisesse navegar. Foi assim que começaram a viajar juntos.
Mas,
apesar da amizade que sentia pelo rapaz, quando o crocodilo teve novamente
fome, lembrou-se de o comer. Antes, porém, quis ouvir a opinião dos outros
animais e todos se mostraram indignadíssimos. Devorar quem o salvara? Que
terrível ingratidão! Envergonhado e cheio de remorsos, o crocodilo resolveu
partir para longe e recomeçar a sua vida onde ninguém o conhecesse. Como o
rapaz era o único amigo que tinha, chamou-o e disse-lhe assim:
- Vem
comigo à procura de um disco de ouro, que flutua nas ondas perto do sítio onde
nasce o sol. Quando o encontrarmos seremos felizes. Mais uma vez viajaram juntos,
agora sulcando o mar que parecia não ter fim mas, a certa altura, o crocodilo
percebeu que não podia continuar. Exausto, deteve-se na intenção de descansar
apenas um instante mas, logo que parou, o corpo transformou-se numa ilha
maravilhosa! O rapaz, que se viu homem feito de um momento para o outro,
verificou, encantado, que trazia ao peito o disco de ouro com que o crocodilo
sonhara. Percorreu então as praias, as colinas e as montanhas e compreendeu que
aquela era a ilha dos seus sonhos. Instalou-se e escolheu o nome para a ilha.
Chamou-lhe Timor, que significa "Oriente".
Pois é. Como já devem ter
percebido, esta lenda surgiu para tentar explicar a forma especial que tem a
ilha de Timor. Parece um crocodilo a nadar.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
2014 - 4ª sessão - "Escritores Diferentes. Uma Só Língua"
A Confissão da Leoa de Mia Couto
A música e a dança moçambicanas trouxeram beleza e alegria à biblioteca. Maria Manuel, uma das representantes da cultura moçambicana em Portugal e também uma das dançarinas, falou-nos de alguns aspetos da sua cultura, nomeadamente do pano que a mulher moçambicana usa e da peculiar forma de andar descalça para sentir a terra, independentemente do seu estrato social. O escritor moçambicano Delmar Gonçalves declamou poesia de Mia Couto e enriqueceu a sessão, falando-nos da vida naquele País e explicando-nos como é o seu povo, o que ajudou a perceber a história deste romance belíssimo que relata um acontecimento real - as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique - e que foi pretexto para Mia Couto escrever sobre homens e mulheres que vivem em condições extremas.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Texto do escritor Germano Almeida
Caros amigos:
Estou feliz por saber que no vosso ciclo de
leituras incluíram e vão proceder à análise do meu livro “O testamento do sr
Napumoceno da Silva Araújo”. É evidente que na qualidade de autor isso só
poderia dar-me prazer e agradeço-vos por tal facto.
Creio poder ajudar-vos um pouco na compreensão
do livro se vos contar, ainda que sumariamente, a história da ilha onde a ação
decorre – S. Vicente. Bem entendido que não pretendo de forma alguma
influenciar a vossa leitura num ou noutro sentido, apenas pretendo dar-vos um
pouco a conhecer o ambiente em que decorre o texto, o que pode até facilitar a
compreensão do personagem.
S.Vicente foi a última das ilhas do
arquipélago a ser povoada. Isso aconteceu porque a natureza a dotou de uma baía
sobre todas superior, mas principalmente porque os ingleses, precisando
impulsionar a neocolonização dos países do atlântico sul para ali colocarem as
excedentárias produções das suas fábricas, precisaram de um lugar intermédio
para abastecimento dos seus navios.
De modo que no de 1838 a companhia inglesa
East Índia estabeleceu em S.Vicente o primeiro depósito de carvão. Ao mesmo
tempo, em Portugal o marquês de Sá da Bandeira decretava “que se funde na ilha
de S.Vicente uma povoação com o nome de Mindelo, em memória do desembarque do
exército expedicionário de D. Pedro IV nas praias do Mindello em Portugal”.
Foi assim que se deu início aos considerados
tempos áureos de Mindelo, e durante cerca de 50 anos assistiu-se a um
crescimento e desenvolvimento de uma cidade nunca antes visto em Cabo Verde,
quer a nível comercial, quer a nivel do ensino e urbano, para além de outros
progressos iam também acontecendo: em Março de 1874 foi amarrado na praia da
Matiota o primeiro-cabo submarino ligando S. Vicente à Europa e América e pouco
depois se instalava no Porto Grande os depósitos de carvão da Cory Brothers
& Cª, pelo que Mindelo passou a ser considerado o maior porto carvoeiro no
médio Atlântico.
Como curiosidade, pode-se dizer que nessa
época Mindelo já era uma vila asseadíssima, alumiada por 100 candieiros de
petróleo, e dotada não só de belos edifícios públicos, (igreja, palacete do
governo, paços do concelho, quartel, alfândega com seu cais, ponte de madeira e
caminho de ferro, para além do mercado em construção) mas
também de algumas casas particulares “onde não falta o conforto, podendo
chamar-se o segundo foco da população e civilização da província”. O Conselho
da Província tinha estabelecido a obrigatoriedade de os habitantes do Mindelo
plantarem uma árvore no seu próprio quintal, por cada três metros quadrados de
terreno ocupado.
Mas não só em infraestruturas crescia a
cidade. A instrução era também objecto de cuidados e funcionavam escolas de
instrução primária para o sexo masculino e outras para o sexo feminino, para
além de ensino particular de francês, inglês e escrituração comercial, tendo
mesmo os alunos da escola municipal formado uma “filarmónica de música marcial
que, se não é boa, atenta a idade dos executantes, pode considerar-se bastante
sofrível”. A 10 de Junho de 1880, dia do tricentário da morte do épico Camões, inaugurou-se
a escola do seu nome, destinada ao sexo feminino, e também a biblioteca
pública, ainda que a mesma só viesse a realmente ser posta à disposição do
público a partir de 1 de Outubro de 1887, porém já com mais de mil volumes,
todos adquiridos através de dádivas dos munícipes. Nessa data de 1880 foi
também lançada a primeira pedra para a construção do hospital da ilha.
De modo que em 1899 a
Revista de Cabo Verde insinua a criação de um liceu em S.Vicente, e em 1900 os
habitantes da ilha dirigem um
memorial ao ministro da Marinha e do Ultramar mostrando-lhe a necessidade de
estabelecer na ilha um escola de instrução secundária e uma outra para o estudo
das línguas estrangeiras.
Foi a partir dos finais dos anos oitenta do
século XIX que Porto Grande começou a
ser confrontado com o problema da falta de procura externa e consequente
desemprego que conduziu a toda a casta de desordem social ao mais desenfreado
alcoolismo. E a situação da população foi ficando cada vez pior, a ponto de uma
comissão de operários da cidade ter tido a iniciativa de apresentar à Câmara
uma petição, assinada por numerosas pessoas, na qual solicitava ao Governador
que proibisse a entrada de toda e qualquer aguardente em S.Vicente, quer
provincial quer de origem estranha, “cujo consumo representa para os pobres
nada menos que um crime de lesa-humanidade”.
S. Vicente devia ter sido a terra de
promissão do caboverdiano e acabou transformado num pequeno inferno de salve-se
quem puder, um povo que aprendeu a sobreviver de expedientes diversos, quer
seja do jogo, quer seja do empréstimo, quer seja das pequenas trapaças que lhe
vão garantindo o dia-a-dia. E talvez por influência de um porto que em cada dia
o metia em contacto com gentes das mais diferentes latitudes, é igualmente um
povo que encara as mudanças, seja qual for a sua natureza, com um optimismo
exagerado. O Sr Napumoceno é um produto desse meio que o viu crescer e
amadurecer como homem.
Espero, pois, que esses dados vos ajudem a
fazer uma correcta apreciação do livro e
Mantenhas, GA
2014 -3ª sessão - "Escritores Diferentes. Uma Só Língua"
O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo de Germano Almeida
Ao entrarem na biblioteca, os participantes foram recebidos pelo som da chuva que, artificialmente foi preparado pela nossa equipa, numa alusão à história escolhida. No cenário encontravam-se, também, panos cabo-verdianos e guarda-chuvas que preparavam o ambiente para mais uma noite de conversa literária. Além destes elementos cénicos, assistimos à atuação do Grupo Finca Pé - batuqueiras cabo-verdianas do Bairro da Cova da Moura. A arte de tocar as "tchabetas" e ainda o texto que nos foi enviado pelo autor propositadamente para este encontro, alegraram-nos e inspiraram-nos para falarmos do Sr. Napumoceno, personagem de uma obra divertida, irónica e de simples leitura.
Entre os leitores houve unanimidade quanto ao Sr. Napumoceno, personagem fascinante, rica, complexa e que se enquadra na sociedade cabo-verdiana.
Entre os leitores houve unanimidade quanto ao Sr. Napumoceno, personagem fascinante, rica, complexa e que se enquadra na sociedade cabo-verdiana.
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