terça-feira, 24 de novembro de 2015

Do Blogue: HORAS EXTRAORDINÁRIAS

 
Do Blogue: HORAS EXTRAORDINÁRIAS
 
 
publicado por Maria do Rosário Pedreira.
 
Sou pouco tecnológica e fico triste quando vejo dois namorados a jantarem juntos num restaurante sem trocarem palavra e sem conseguirem desviar os olhos dos respectivos telemóveis. Tiram fotografias ao que comem, que logo põem no Facebook, e escrevem SMS a amigos entre garfadas. Quando marcam um encontro, o primeiro a chegar raramente consegue esperar uns minutinhos sem enviar ao outro uma mensagem a avisar que já lá está, se é que não faz imediatamente um telefonema, como se não conseguisse aguentar ficar sozinho aquele lapso de tempo (mas, quando o outro chega, mal lhe fala). Desde que os aparelhos se tornaram não só úteis nos momentos certos, mas imprescindíveis a toda a hora, as pessoas deixaram-se escravizar por eles. Mas há quem pense que essa dependência é nociva e tenha arranjado uma alternativa. Numa estação em Grenoble, para os que ficam à espera há máquinas que imprimem pequenos contos para quem se quiser entreter até vir o seu comboio. O passageiro pode, inclusivamente, escolher entre histórias de um, três ou cinco minutos – e o conto é «dispensado» pela máquina em papel de recibo, próprio para ser deitado fora depois de terminada a leitura. Uma ideia que era bom que pegasse em mais sítios, aumentando a instrução das pessoas e distraindo-as por uns instantes dos malfadados telemóveis.
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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Ainda, o desafio de Literatura à Desgarrada



Desde 2011 que “enamorava” este livro, Os enamoramentos de Javier Marias, só agora o consegui ler.
Um dos livros mais bonitos que li nos últimos tempos, não tanto pela história que conta, mas pelo modo como a Javier Marias a conta.
Maria é uma mulher independente, vive sozinha, trabalha numa editora e começa a dar-se conta todos os dias no café onde vai tomar o pequeno-almoço de um casal, um homem e uma mulher, a quem rapidamente põe a alcunha de “casal perfeito”, “era como se houvessem adquirido o costume de respirar juntos um pouco”.

Pouco tempo depois, sem razão aparente, o homem é morto por um arrumador de automóveis com três facadas. Este violento episódio e as motivações por detrás do crime, se é que houve algum motivo, podiam fazer deste livro um policial centrado na resolução desse enigma, mas este livro é muito mais do que isso. É uma reflexão sobre o espaço que os mortos ocupam entre nós, os vivos, uma reflexão sobre a dor extrema e uma reflexão sobre o que há de único e incompreensível nos enamoramentos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Exposição "Urbano Tavares Rodrigues: Um percurso de liberdade"

"Urbano Tavares Rodrigues: um percurso de liberdade" é o título da exposição que está patente ao público no átrio da Biblioteca até 30 de janeiro de 2016, onde se pretende dar a conhecer UTR - a sua vida e a sua obra literária. É uma exposição na primeira pessoa - é Urbano que fala de si (em entrevistas dadas a diversos jornalistas), do seu percurso de vida enquanto homem livre, professor, jornalista, militante comunista e escritor.

Venha à tertúlia e aproveite para visitar a exposição!

Tertúlia literária à volta da vida e obra de Urbano Tavares Rodrigues


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Bibliotecas em Inglaterra


«A biblioteca medieval onde Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista, outra onde pode-se tocar bateria e jogar videogame, ou uma homenageando John Lennon.
Estas são algumas das maravilhosas e incríveis bibliotecas por onde passei aqui na Inglaterra.»

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Um Buraco na Estante: Desafio de leitura à desgarrada









Depois de ler Submissão de  Michel Houellebecq, autor que desconhecia, não resisti em ler este seu outro livro O Mapa e o Território. E fiquei absolutamente fã do autor.
Este livro é, à partida, um romance sobre um homem que se torna num caso de sucesso mundial através, primeiro, de uma série de fotografias que partiam dos mapas Michelin das diferentes regiões, depois de uma série de quadros a óleo onde retrata profissões, algumas já desaparecidas e outras entretanto surgidas. Mas depressa se torna num jogo de observação da realidade social.
Jed Martin, esse artista que vive mais preocupado com o aquecimento da sua casa do que com a mudança que poderia fazer com o dinheiro que recebeu, insiste em convidar um autor de romances para escrever o texto para o catálogo da sua exposição. O encontro com esse autor, Michel Houellebecq, permite que o autor do livro, o mesmo ou outro Houllebecq, produza considerações sobre a sua própria "persona" e, assim, se posicione e avalie em relação ao mundo social, cultural, político e filosófico onde é tido como figura referencial, apesar de polémico.
O Mapa e o Território não é apenas uma espécie de estado do mundo público, é também uma reflexão sobre o modo como a pressão social esmaga e sufoca o homem dito comum.

Carreira em oposição vida sentimental; Desprezo pelo dinheiro; Desprezo por obrigações; Vidas familiares vazias de sentido; Eutanásia; Utopias sociais. São estes os retratos ácidos que o autor nos leva a refletir e a discutir. Recomendo vivamente.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Um Buraco na Estante: Desafio de leitura à desgarrada

Um Buraco na Estante: Desafio de leitura à desgarrada:

Então aqui vai a resposta ao desafio:


 
 
Submissão de Michel Houellebecq foi um livro que "me encheu as medidas".
Passa-se em 2022 e François Hollande prepara-se para
terminar um apagadíssimo segundo mandato, durante o qual emergiu uma nova força
política: a Fraternidade Muçulmana, liderada por Mohammed Ben Abbes, um
excelente orador, subtil, inteligentíssimo, carismático (Um Obama árabe).
Quando a primeira volta da eleição presidencial confirma o colapso dos
tradicionais partidos do poder abre-se caminho ao triunfo de Abbes. França vive
num clima de guerra civil, com casos graves de violência urbana que são
silenciados pela comunicação social, por temor de que a sua divulgação favoreça
eleitoralmente a FN. Após as eleições, tudo se altera. O novo poder islâmico é
suave e Abbes leva a água ao seu moinho, sempre com pezinhos de lã. Nada de
imposições radicais da 'sharia' (a lei islâmica), nada de fundamentalismo. As
primeiras medidas - redução de impostos e mais apoios às pequenas empresas
familiares - trazem-lhe popularidade. O desemprego baixa vertiginosamente,
porque as mulheres são incentivadas a sair do mercado de trabalho. A dívida é
controlada. A economia cresce. Os focos de conflitos sociais desaparecem. A
criminalidade também. Instala-se uma inesperada paz social. E mais não conto. É
um livro que dá muito de que falar e pensar.