segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

1ª sessão com a presença da escritora Lídia Jorge. 5 de fevereiro, 21H00, na BMJS

"Este jeito de ser gente em Portugal" é o título do tema que lhe propomos e que tem a ver connosco, a nossa gente - os portugueses. O que fomos, o que somos, as nossas crenças, o nosso modus vivendi, a nossa relação com o mundo.

Este jeito de ser gente em Portugal é o olhar de várias gerações de escritores portugueses da literatura contemporânea e é através das suas palavras que vos convidamos a refletir sobre a condição de ser português.

A primeira sessão desta edição 2015 começará com a análise da obra "Os Memoráveis" e estará à conversa connosco a sua  autora Lídia Jorge.  É uma  ótima oportunidade para debatermos esta excelente  obra literária que trata de um tema tão querido para os portugueses. Por isso, caro leitor, estas são razões válidas para vir à Biblioteca Municipal José Saramago (Loures) e desfrutar de um serão magnífico.


Programa da edição 2015 da Comunidade de Leitores


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Texto do escritor Afonso Cruz

Hoje faço anos, quarenta e três, e este encontro é um belo presente de aniversário. Estou a escrever este texto, enquanto o senhor Sacoto, sentado num tractor enorme, apanha o feno que plantou há uns meses. A paisagem que vejo da janela é a mesma que serve de cenário ao livro Jesus Cristo Bebia Cerveja. As mesmas oliveiras, azinheiras, ovelhas, beldroegas, figueiras, sobreiros. Mas também algumas das histórias: aqui, na aldeia mais próxima da minha casa, há uma pessoa que vai aos correios diversas vezes por dia, quer saber se recebeu alguma carta, a senhora diz-lhe que não, ele sai, anda uns metros, pára, já não se lembra de ter entrado nos correios uns minutos antes, volta para trás, quer saber se recebeu alguma carta. E, quando aqui cheguei, um ou dois meses depois de me ter mudado, morreu a avó de um dos colegas da creche onde o meu filho andava: matou-se, atirando-se para dentro de um poço. Fê-lo à frente do neto e do filho. O monte isolado na paisagem é também a imagem de muitas das almas isoladas na sua paisagem social e afectiva. Mas Jesus Cristo Bebia Cerveja é, sobretudo, um livro sobre metamorfoses. Como disse Camões, transforma-se o amador na cousa amada, e é precisamente essa ideia que, para mim, define a nossa transcendência, a possibilidade de um homem poder ser Deus, de uma aldeia alentejana poder ser Jerusalém, de um cereal maltado se transformar em cerveja. Tornamo-nos aquilo que desejamos, que perseguimos, que amamos, que adoramos. Sagrado significa literalmente "colocar à parte", e é a maneira que nós temos de tirar uma pessoa do meio da multidão anónima, pondo-a num lugar especial. É assim que o sagrado passa a ser qualquer objecto da nossa adoração: um seixo que tiramos do fundo de um rio onde passámos uma tarde especial, uma concha que apanhámos numa praia distante, o relógio do avô (que já fora do pai dele, do avô dele, do bisavô dele). E, claro, as pessoas: amigos, familiares, amantes, santos, cantores pop. Jesus Cristo Bebia Cerveja trata desta magia, da possibilidade de uma coisa pequena poder ter, graças à nossa adoração, amor, desejo, admiração, a dimensão de uma cidade sagrada. Os livros também têm essa possibilidade, podem crescer, podem chegar a ter o tamanho dos seus leitores.
Hoje faço anos. Gostaria de fazer um brinde convosco. Com cerveja, claro.
Muito obrigado! 

Afonso Cruz



2014 - 6ª sessão - "Escritores Diferentes. Uma Só Língua"


Jesus Cristo Bebia Cerveja de Afonso Cruz

Esta foi a última sessão desta edição dedicada à Língua Portuguesa e à Lusofonia. Terminámos em Portugal, mais propriamente no Alentejo. Esta região não só serviu de cenário ao romance de Afonso Cruz, como serviu de pretexto para ter na nossa companhia   o cante alentejano pelo Grupo Coral da Liga dos Amigos das Minas de S. Domingos (Alentejo), com sede em Sacavém. O seu cante foi sublime e espalhou-se por toda a biblioteca e fez despertar sentimentos e emoções nos nossos leitores.  De seguida ouvimos na voz doce de  Vera Morganheira as palavras de um texto que o escritor Afonso Cruz nos enviou, na impossibilidade de estar connosco, e que começa desta forma: "Hoje faço anos, quarenta e três, e este encontro é um belo presente de aniversário".Também para nós, as suas palavras constituíram um presente e serviram para iniciar a conversa sobre a obra literária, que mais uma vez dividiu opiniões. Para alguns leitores, este livro é de uma imaginação rara, porque transforma uma pequena aldeia alentejana em Jerusalém graças ao amor de uma rapariga pela sua avó, cujo maior desejo é visitar a Terra Santa é realmente fabuloso. Para outros, um livro extraordinário porque fala das transformações do ser humano e para outros leitores que não tinham gostado muito deste romance, concluíram que o tinham de ler novamente.
Terminámos com um brinde ao autor, com cerveja, claro!







O Cante Alentejano pelo Grupo Coral da Liga dos Amigos das Minas de S. Domingos




quarta-feira, 18 de junho de 2014

Texto do escritor Luis Cardoso de Noronha

Aos leitores agradeço o interesse pelo meu livro. Os meus votos de uma feliz Travessia através do Requiem para o navegador solitário. Para vós dedico a minha crónica O Apelo do Mar em Travessias Luís Cardoso. Abraço
O APELO DO MAR
A primeira vez que se olha para o mar fica-se com a vontade de fazer uma viagem para o outro lado, atravessando essa enorme extensão de águas. Não sei se é essa a razão que faz com que muitos se tenham virado para o mar, em busca de liberdade, de paz, do silêncio, da solidão, da explicação da vida, deles próprios, a fuga ou o retorno. Razões íntimas que ultrapassam os enredos que cada um possa forjar, para explicar o apelo do mar.
Rui Cinatti, português, poeta, silvicultor, antropólogo e estudioso de Timor dedica o seu poema Visão a Alain Gerbault, a quem presta homenagem pelo facto de lhe ter dado a conhecer as fabulosas ilhas dos mares do sul e a cultura dos povos insulares.
Eram ilhas
Hercúleas: coroas
Vegetais sobrenadando
Altos castelos submersos e, apenas,
(«Sepultem-me no mar, longe de tudo»),
Alain,
Entre vagas, velas e gaivotas.
Timor está consagrado como a ilha do sândalo branco. Camões escreve no Canto Décimo dos Lusíadas Ali também Timor que o lenho manda sândalo salutífero e cheiroso. Também é local de passagem. Assim acontece com a primeira viagem de circum-navegação, que o cronista António Pigafetta reporta no seu livro de bordo Relazione del primo viaggio intorno al mondo. Mais tarde os portugueses transformam a ilha num local de desterro para muitos dos opositores ao regime de Salazar. Quando Alain Gerbault chega a Díli, Timor encontra-se num momento de tensão. A guerra está prestes a eclodir no Oriente. O território declarado neutro por Salazar sofre pressão tanto das forças aliadas como das japonesas. Alain é uma celebridade. As autoridades dispensam-lhe alguma atenção e chega mesmo a disputar partidas de ténis com residentes. No entanto adoece e acaba por falecer no dia 16 de Dezembro de 1941, no Hospital de Lahane. A sua morte não tem a devida atenção pela comunicação social por causa da guerra na Europa e da iminência da sua eclosão na Ásia.
Cinatti vai para Timor após a ocupação japonesa. É no cemitério de Santa Cruz que localiza e assinala a campa de Alain Gerbault, o navegador solitário, cujos restos mortais são levados posteriormente pela marinha francesa para Bora Bora.
O meu interesse pela vida e obra do navegador solitário francês começa a partir do momento em que tomo conhecimento da sua morte em Timor. Numa ilha considerada local de passagem e porto de abrigo para viajantes.
Fazer uma grande viagem pelo mar é o sonho de qualquer criança que viva numa ilha. Lembro-me dum episódio na infância, passado na ilha de Ataúro, com um grupo de amigos. A nossa primeira tentativa de fuga ao lar. Mais do que uma fuga era a nossa vontade de descobrir o que havia para lá dos mares. A viagem que seria o princípio do conhecimento do Universo. À procura de encontros imprevistos. Uma tentativa para romper com o cerco da ilha, cuja circunstância geográfica foi aproveitada como prisão para deportados. Um banco de corais não nos deixou ir mais longe. A piroga ficou encalhada nas pedras que emergiam do fundo do mar. O nosso sonho ficou por aí. É essa a razão que me leva a escrever romances que têm como pano de fundo as grandes viagens marítimas. Uma das quais feita por Alain Gerbault que celebro no meu livro Requiem para o navegador solitário.
A morte de um estrangeiro é sempre motivo de constrangimento por não ter o devido acompanhamento por parte de familiares e de amigos. Cada um devia morrer no local onde nasceu, devolvendo à terra tudo o que esta lhe deu em vida. Assim diz uma lenda que li algures. Tendo partido em busca do sol, como sugere o título do seu livro A la poursuite du soleil, Alain Gerbault morre na ilha onde, segundo a mitologia timorense, nasce o sol, completando assim o seu ciclo de vida. Cinatti adivinha-lhe as últimas palavras:
- Sepultem-me no mar, longe de tudo

Entre valas, velas e gaivotas!
Luis Cardoso de Noronha

2014 - 5ª sessão - "Escritores Diferentes. Uma Só Língua"

Requiem para um navegador solitário de Luis Cardoso de Noronha
Deu-se início a esta sessão dedicada a Timor ouvindo a lenda da criação deste País interpretada por Orlanda Rodrigues. De seguida Adriana Lopes leu  um texto  enviado pelo escritor Luis Cardoso de Noronha  dedicando a crónica "O apelo do mar" a todos os leitores desta comunidade.
Uma sessão agradável e informativa porque  ficámos a conhecer um pouco mais da história de Timor, num período conturbado entre o Ocidente e o Oriente, num cenário de 2ª Guerra Mundial e ainda ficámos a conhecer um pouco do seu imaginário mítico.
Terminámos com a prova dos doces timorenses Mano Tem, fritos que são considerados como a salvação das donas de casa timorenses quando  estas recebem uma visita inesperada e acompanhámos com um capilé que a equipa da BMJS preparou.