quarta-feira, 9 de julho de 2014

2014 - 6ª sessão - "Escritores Diferentes. Uma Só Língua"


Jesus Cristo Bebia Cerveja de Afonso Cruz

Esta foi a última sessão desta edição dedicada à Língua Portuguesa e à Lusofonia. Terminámos em Portugal, mais propriamente no Alentejo. Esta região não só serviu de cenário ao romance de Afonso Cruz, como serviu de pretexto para ter na nossa companhia   o cante alentejano pelo Grupo Coral da Liga dos Amigos das Minas de S. Domingos (Alentejo), com sede em Sacavém. O seu cante foi sublime e espalhou-se por toda a biblioteca e fez despertar sentimentos e emoções nos nossos leitores.  De seguida ouvimos na voz doce de  Vera Morganheira as palavras de um texto que o escritor Afonso Cruz nos enviou, na impossibilidade de estar connosco, e que começa desta forma: "Hoje faço anos, quarenta e três, e este encontro é um belo presente de aniversário".Também para nós, as suas palavras constituíram um presente e serviram para iniciar a conversa sobre a obra literária, que mais uma vez dividiu opiniões. Para alguns leitores, este livro é de uma imaginação rara, porque transforma uma pequena aldeia alentejana em Jerusalém graças ao amor de uma rapariga pela sua avó, cujo maior desejo é visitar a Terra Santa é realmente fabuloso. Para outros, um livro extraordinário porque fala das transformações do ser humano e para outros leitores que não tinham gostado muito deste romance, concluíram que o tinham de ler novamente.
Terminámos com um brinde ao autor, com cerveja, claro!







O Cante Alentejano pelo Grupo Coral da Liga dos Amigos das Minas de S. Domingos




quarta-feira, 18 de junho de 2014

Texto do escritor Luis Cardoso de Noronha

Aos leitores agradeço o interesse pelo meu livro. Os meus votos de uma feliz Travessia através do Requiem para o navegador solitário. Para vós dedico a minha crónica O Apelo do Mar em Travessias Luís Cardoso. Abraço
O APELO DO MAR
A primeira vez que se olha para o mar fica-se com a vontade de fazer uma viagem para o outro lado, atravessando essa enorme extensão de águas. Não sei se é essa a razão que faz com que muitos se tenham virado para o mar, em busca de liberdade, de paz, do silêncio, da solidão, da explicação da vida, deles próprios, a fuga ou o retorno. Razões íntimas que ultrapassam os enredos que cada um possa forjar, para explicar o apelo do mar.
Rui Cinatti, português, poeta, silvicultor, antropólogo e estudioso de Timor dedica o seu poema Visão a Alain Gerbault, a quem presta homenagem pelo facto de lhe ter dado a conhecer as fabulosas ilhas dos mares do sul e a cultura dos povos insulares.
Eram ilhas
Hercúleas: coroas
Vegetais sobrenadando
Altos castelos submersos e, apenas,
(«Sepultem-me no mar, longe de tudo»),
Alain,
Entre vagas, velas e gaivotas.
Timor está consagrado como a ilha do sândalo branco. Camões escreve no Canto Décimo dos Lusíadas Ali também Timor que o lenho manda sândalo salutífero e cheiroso. Também é local de passagem. Assim acontece com a primeira viagem de circum-navegação, que o cronista António Pigafetta reporta no seu livro de bordo Relazione del primo viaggio intorno al mondo. Mais tarde os portugueses transformam a ilha num local de desterro para muitos dos opositores ao regime de Salazar. Quando Alain Gerbault chega a Díli, Timor encontra-se num momento de tensão. A guerra está prestes a eclodir no Oriente. O território declarado neutro por Salazar sofre pressão tanto das forças aliadas como das japonesas. Alain é uma celebridade. As autoridades dispensam-lhe alguma atenção e chega mesmo a disputar partidas de ténis com residentes. No entanto adoece e acaba por falecer no dia 16 de Dezembro de 1941, no Hospital de Lahane. A sua morte não tem a devida atenção pela comunicação social por causa da guerra na Europa e da iminência da sua eclosão na Ásia.
Cinatti vai para Timor após a ocupação japonesa. É no cemitério de Santa Cruz que localiza e assinala a campa de Alain Gerbault, o navegador solitário, cujos restos mortais são levados posteriormente pela marinha francesa para Bora Bora.
O meu interesse pela vida e obra do navegador solitário francês começa a partir do momento em que tomo conhecimento da sua morte em Timor. Numa ilha considerada local de passagem e porto de abrigo para viajantes.
Fazer uma grande viagem pelo mar é o sonho de qualquer criança que viva numa ilha. Lembro-me dum episódio na infância, passado na ilha de Ataúro, com um grupo de amigos. A nossa primeira tentativa de fuga ao lar. Mais do que uma fuga era a nossa vontade de descobrir o que havia para lá dos mares. A viagem que seria o princípio do conhecimento do Universo. À procura de encontros imprevistos. Uma tentativa para romper com o cerco da ilha, cuja circunstância geográfica foi aproveitada como prisão para deportados. Um banco de corais não nos deixou ir mais longe. A piroga ficou encalhada nas pedras que emergiam do fundo do mar. O nosso sonho ficou por aí. É essa a razão que me leva a escrever romances que têm como pano de fundo as grandes viagens marítimas. Uma das quais feita por Alain Gerbault que celebro no meu livro Requiem para o navegador solitário.
A morte de um estrangeiro é sempre motivo de constrangimento por não ter o devido acompanhamento por parte de familiares e de amigos. Cada um devia morrer no local onde nasceu, devolvendo à terra tudo o que esta lhe deu em vida. Assim diz uma lenda que li algures. Tendo partido em busca do sol, como sugere o título do seu livro A la poursuite du soleil, Alain Gerbault morre na ilha onde, segundo a mitologia timorense, nasce o sol, completando assim o seu ciclo de vida. Cinatti adivinha-lhe as últimas palavras:
- Sepultem-me no mar, longe de tudo

Entre valas, velas e gaivotas!
Luis Cardoso de Noronha

2014 - 5ª sessão - "Escritores Diferentes. Uma Só Língua"

Requiem para um navegador solitário de Luis Cardoso de Noronha
Deu-se início a esta sessão dedicada a Timor ouvindo a lenda da criação deste País interpretada por Orlanda Rodrigues. De seguida Adriana Lopes leu  um texto  enviado pelo escritor Luis Cardoso de Noronha  dedicando a crónica "O apelo do mar" a todos os leitores desta comunidade.
Uma sessão agradável e informativa porque  ficámos a conhecer um pouco mais da história de Timor, num período conturbado entre o Ocidente e o Oriente, num cenário de 2ª Guerra Mundial e ainda ficámos a conhecer um pouco do seu imaginário mítico.
Terminámos com a prova dos doces timorenses Mano Tem, fritos que são considerados como a salvação das donas de casa timorenses quando  estas recebem uma visita inesperada e acompanhámos com um capilé que a equipa da BMJS preparou.






A Lenda de Timor


Em tempos que já lá vão, vivia na ilha Celebes um crocodilo muito velho, tão velho que não conseguia caçar os peixes do rio. Certo dia, morto de fome, decidiu aventurar-se pelas margens em busca de algum porco distraído que lhe servisse de refeição. Andou, andou, até cair exausto e desesperado, sem forças para regressar à água. Quem lhe valeu foi um rapaz simpático e robusto que teve pena dele e o arrastou pela cauda.
Em paga pelo serviço prestado, o crocodilo ofereceu-se para o transportar às costas sempre que ele quisesse navegar. Foi assim que começaram a viajar juntos.
Mas, apesar da amizade que sentia pelo rapaz, quando o crocodilo teve novamente fome, lembrou-se de o comer. Antes, porém, quis ouvir a opinião dos outros animais e todos se mostraram indignadíssimos. Devorar quem o salvara? Que terrível ingratidão! Envergonhado e cheio de remorsos, o crocodilo resolveu partir para longe e recomeçar a sua vida onde ninguém o conhecesse. Como o rapaz era o único amigo que tinha, chamou-o e disse-lhe assim:
- Vem comigo à procura de um disco de ouro, que flutua nas ondas perto do sítio onde nasce o sol. Quando o encontrarmos seremos felizes. Mais uma vez viajaram juntos, agora sulcando o mar que parecia não ter fim mas, a certa altura, o crocodilo percebeu que não podia continuar. Exausto, deteve-se na intenção de descansar apenas um instante mas, logo que parou, o corpo transformou-se numa ilha maravilhosa! O rapaz, que se viu homem feito de um momento para o outro, verificou, encantado, que trazia ao peito o disco de ouro com que o crocodilo sonhara. Percorreu então as praias, as colinas e as montanhas e compreendeu que aquela era a ilha dos seus sonhos. Instalou-se e escolheu o nome para a ilha. Chamou-lhe Timor, que­ significa "Oriente".
Pois é. Como já devem ter percebido, esta lenda surgiu para tentar explicar a forma especial que tem a ilha de Timor. Parece um crocodilo a nadar.


quarta-feira, 28 de maio de 2014

2014 - 4ª sessão - "Escritores Diferentes. Uma Só Língua"

A Confissão da Leoa de Mia Couto
A música e a dança moçambicanas trouxeram beleza e alegria à biblioteca. Maria Manuel, uma das representantes da cultura moçambicana em Portugal e também uma das dançarinas, falou-nos de alguns aspetos da sua cultura, nomeadamente do pano que a mulher moçambicana usa e da peculiar forma de andar descalça para sentir a terra, independentemente do seu estrato social. O escritor moçambicano Delmar Gonçalves declamou poesia de Mia Couto e enriqueceu a sessão, falando-nos da vida naquele País e explicando-nos como é o seu povo, o que ajudou a perceber a história deste romance belíssimo que relata um acontecimento real - as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique - e que foi  pretexto para Mia Couto escrever sobre homens e mulheres  que vivem em condições extremas. 



quarta-feira, 7 de maio de 2014

Texto do escritor Germano Almeida

Caros amigos:
   Estou feliz por saber que no vosso ciclo de leituras incluíram e vão proceder à análise do meu livro “O testamento do sr Napumoceno da Silva Araújo”. É evidente que na qualidade de autor isso só poderia dar-me prazer e agradeço-vos por tal facto.
 Creio poder ajudar-vos um pouco na compreensão do livro se vos contar, ainda que sumariamente, a história da ilha onde a ação decorre – S. Vicente. Bem entendido que não pretendo de forma alguma influenciar a vossa leitura num ou noutro sentido, apenas pretendo dar-vos um pouco a conhecer o ambiente em que decorre o texto, o que pode até facilitar a compreensão do personagem. 
 S.Vicente foi a última das ilhas do arquipélago a ser povoada. Isso aconteceu porque a natureza a dotou de uma baía sobre todas superior, mas principalmente porque os ingleses, precisando impulsionar a neocolonização dos países do atlântico sul para ali colocarem as excedentárias produções das suas fábricas, precisaram de um lugar intermédio para abastecimento dos seus navios.
  De modo que no de 1838 a companhia inglesa East Índia estabeleceu em S.Vicente o primeiro depósito de carvão. Ao mesmo tempo, em Portugal o marquês de Sá da Bandeira decretava “que se funde na ilha de S.Vicente uma povoação com o nome de Mindelo, em memória do desembarque do exército expedicionário de D. Pedro IV nas praias do Mindello em Portugal”.
  Foi assim que se deu início aos considerados tempos áureos de Mindelo, e durante cerca de 50 anos assistiu-se a um crescimento e desenvolvimento de uma cidade nunca antes visto em Cabo Verde, quer a nível comercial, quer a nivel do ensino e urbano, para além de outros progressos iam também acontecendo: em Março de 1874 foi amarrado na praia da Matiota o primeiro-cabo submarino ligando S. Vicente à Europa e América e pouco depois se instalava no Porto Grande os depósitos de carvão da Cory Brothers & Cª, pelo que Mindelo passou a ser considerado o maior porto carvoeiro no médio Atlântico.
 Como curiosidade, pode-se dizer que nessa época Mindelo já era uma vila asseadíssima, alumiada por 100 candieiros de petróleo, e dotada não só de belos edifícios públicos, (igreja, palacete do governo, paços do concelho, quartel, alfândega com seu cais, ponte de madeira e caminho de ferro, para além do mercado em construção) mas também de algumas casas particulares “onde não falta o conforto, podendo chamar-se o segundo foco da população e civilização da província”. O Conselho da Província tinha estabelecido a obrigatoriedade de os habitantes do Mindelo plantarem uma árvore no seu próprio quintal, por cada três metros quadrados de terreno ocupado.
   Mas não só em infraestruturas crescia a cidade. A instrução era também objecto de cuidados e funcionavam escolas de instrução primária para o sexo masculino e outras para o sexo feminino, para além de ensino particular de francês, inglês e escrituração comercial, tendo mesmo os alunos da escola municipal formado uma “filarmónica de música marcial que, se não é boa, atenta a idade dos executantes, pode considerar-se bastante sofrível”. A 10 de Junho de 1880, dia do tricentário da morte do épico Camões, inaugurou-se a escola do seu nome, destinada ao sexo feminino, e também a biblioteca pública, ainda que a mesma só viesse a realmente ser posta à disposição do público a partir de 1 de Outubro de 1887, porém já com mais de mil volumes, todos adquiridos através de dádivas dos munícipes. Nessa data de 1880 foi também lançada a primeira pedra para a construção do hospital da ilha.
De modo que em 1899 a Revista de Cabo Verde insinua a criação de um liceu em S.Vicente, e em 1900 os habitantes da              ilha dirigem um memorial ao ministro da Marinha e do Ultramar mostrando-lhe a necessidade de estabelecer na ilha um escola de instrução secundária e uma outra para o estudo das línguas estrangeiras.
  Foi a partir dos finais dos anos oitenta do século XIX  que Porto Grande começou a ser confrontado com o problema da falta de procura externa e consequente desemprego que conduziu a toda a casta de desordem social ao mais desenfreado alcoolismo. E a situação da população foi ficando cada vez pior, a ponto de uma comissão de operários da cidade ter tido a iniciativa de apresentar à Câmara uma petição, assinada por numerosas pessoas, na qual solicitava ao Governador que proibisse a entrada de toda e qualquer aguardente em S.Vicente, quer provincial quer de origem estranha, “cujo consumo representa para os pobres nada menos que um crime de lesa-humanidade”.
  S. Vicente devia ter sido a terra de promissão do caboverdiano e acabou transformado num pequeno inferno de salve-se quem puder, um povo que aprendeu a sobreviver de expedientes diversos, quer seja do jogo, quer seja do empréstimo, quer seja das pequenas trapaças que lhe vão garantindo o dia-a-dia. E talvez por influência de um porto que em cada dia o metia em contacto com gentes das mais diferentes latitudes, é igualmente um povo que encara as mudanças, seja qual for a sua natureza, com um optimismo exagerado. O Sr Napumoceno é um produto desse meio que o viu crescer e amadurecer como homem.
 Espero, pois, que esses dados vos ajudem a fazer uma correcta apreciação do livro e
Mantenhas, GA